Dom Murilo: “Porte de armas não é o tema mais urgente que precisamos debater neste momento”

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Em seu artigo intitulado “Em busca do direito, da justiça e da paz”, dom Murilo Krieger, arcebispo de Salvador e vice-presidente da CNBB, diz que é preciso reconhecer humilde e realisticamente que os problemas do Brasil são muitos e graves, e em qualquer campo. “Mais do que nunca é necessário um grande mutirão, envolvendo o maior número possível de pessoas para enfrentá-los. Mesmo que consigamos a adesão de muitos – isto é, de pessoas capazes para atacar tais problemas e imbuídas de boa vontade -, precisamos escolher prioridades”, afirmou o bispo.

De acordo com ele são critérios para essa escolha perguntas do tipo: ‘Quais são nossos problemas mais importantes?’ ‘Quais os que provocam maiores consequências?’ Que iniciativas devem ser tomadas para se atacar suas causas?’. Se não for feito isso, o bispo diz que corre-se o risco de se fazer muito e perder-se de foco.  “O apóstolo Paulo expressa melhor o que quero transmitir: “Por isso, eu corro, mas não sem meta. Eu luto, não como quem golpeia o ar” (1Cor 9,26)”, aponta.

No artigo, o arcebispo afirma ainda que de repente, um tema começou a ganhar grandes proporções nas redes sociais: o do direito de todo cidadão brasileiro poder andar armado. De acordo com ele, as motivações para isso são muitas e conhecidas: acabar com a escalada da violência; dar resposta aos desafios que são enfrentados; rever o Estatuto do Desarmamento, aprovado em 2018 etc.

Segundo dom Murilo, os que defendem o Estatudo do Desarmamento lembram que ele tanto impõe restrições ao porte de armas por civis como também especifica crimes de comércio ilegal e tráfico internacional de armas de fogo, e amplia as penas para o porte de arma em situação irregular. “Portanto, nossos problemas nesse campo não estariam tanto na Lei em vigor, mas em sua não aplicação”, argumenta o bispo.

Para ele, a impunidade é um câncer que causa imensos estragos. Dom Murilo diz ainda que para se ter uma ideia concreta sobre o resultado do Estatuto do Desarmamento, é necessário comparar o crescimento das taxas de homicídio antes e depois de sua entrada em vigor. Além disso, o bispo salienta que os registros policiais comprovam que ao reagir a um assalto com uma arma aumenta em 180 vezes as chances de morte da vítima.”Também aqui as estatísticas servem para comprovar a tese: nos Estados Unidos, onde é fácil a aquisição e o porte de armas, temos repetidos massacres de civis e um grande número de suicídios (600 mil desde 2000; entre eles, 20 mil menores de idade; 50% foram cometidas com armas de fogo) etc., etc”, disse.

Dom Murilo salienta que a questão é séria, precisa ser amplamente debatida e deve envolver toda a sociedade, sem esquecer que, em discussões como essa, os argumentos emotivos e as estatísticas usadas habilmente pesam muito. “Até frases do Evangelho (“Jesus, porém, disse: “Guarda a espada! Todos os que usam da espada, pela espada perecerão” – Mt 26,52) ou textos do Catecismo da Igreja Católica (na linha do direito à legítima defesa) poderão ser usados (ou manipulados) por um ou outro lado”, diz.

Mas, segundo ele, este não é o tema mais urgente que é preciso debater neste momento. “A questão da segurança pública, sim, é grave e é urgente. Mas, não nos esqueçamos: não se resolve problemas complexos com respostas (ou propostas) simples”, reitera.

Ainda de acordo em ele, a Campanha da Fraternidade deste ano de 2019, cujo tema é “Fraternidade e Políticas Públicas” e lema “Serás libertado pelo direito e pela justiça” propõe um objetivo que é “muito oportuno” neste momento da vida nacional: o de estimular a participação em Políticas Públicas, à luz da Palavra de Deus e da Doutrina Social da Igreja, para fortalecer a cidadania e o bem comum, sinais de fraternidade. “Que o Espírito Santo ilumine a todos nós neste ano de 2019 – nós, que desejamos um Brasil justo, fraterno e solidário!”, finaliza o artigo.